Por vezes, ao procurarmos locais menos conhecidos ou dos quais pouco ouvimos falar, encontramos verdadeiros tesouros! Durante uma visita a Braga, tivemos conhecimento da existência do Mosteiro de São Martinho de Tibães que fica a 7km do centro da
cidade e claro, curiosas como somos, lá fomos nós.

Desde o século VI que existem registos de um pequeno mosteiro nestes terrenos, mas só no decorrer do século XI terá sido reconstruído e doado à Sé de Braga. No século XII é ocupado pela Congregação Beneditina que se rege por um conjunto de preceitos escritos por Bento de Núrsia no século VI, destinados a regular a vivência da comunidade. São eles: silêncio, pobreza, obediência, oração e trabalho.

O refúgio desta comunidade monástica regida por um Abade tornou-se, em meados do século XVI, a casa-mãe da Ordem para Portugal e Brasil. Os edifícios principais atualmente existentes foram construídos nos séculos XVII e XVIII. Em 1986 o imóvel foi adquirido pelo Estado Português, depois de ter sido propriedade privada durante mais de um século, após a extinção das ordens religiosas masculinas em 1834.

O primeiro contacto com a área envolvente dá-se com a chegada ao Terreiro onde se pode estacionar e em cujo centro se eleva o Cruzeiro construído no início do século XIX onde se exibem as Armas da Congregação.

A entrada no mosteiro remete-nos para a zona da receção e loja (antigamente a cavalariça) onde se podem observar alguns vestígios destruídos, assim como uma maquete do mosteiro e um conjunto de bonecos de pequena escala recriando a Procissão de São Sebastião ou Procissão do Cerco que se realiza anualmente na tarde do 2º domingo de Agosto.


Seguimos para o claustro do cemitério, um espaço tranquilo e agradável, onde os monges liam, oravam e meditavam na vida do patriarca São Bento. Em fim de vida, era aqui o seu repouso eterno e os números das suas sepulturas ainda são bem visíveis no chão. Este espaço, construído na primeira metade do século XVII, foi posteriormente enriquecido com um chafariz e com painéis de azulejos em estilo rococó que retratam a vida de São Bento.


Na igreja, cuja construção foi concluída em 1661, predominam os estilos neoclássico e rococó. Com uma única nave e uma série de capelas laterais, aqui a atração principal é o fantástico retábulo-mor em talha dourada com um riquíssimo trabalho levado a cabo pelo arquiteto André Soares e a sua equipa de entalhadores, escultores e douradores.


Aqui cabe perguntar: porquê tanta riqueza numa casa onde um dos requisitos era praticar a pobreza? Tudo o que os monges conseguiam angariar com as vendas do que produziam, assim como as dádivas dos Reis, era gasto com estes luxos porque “para a casa de Deus nada era demais e tudo o que Deus dava a Deus devia reverter”.

Ao contrário do que é habitual, a Sacristia está separada da igreja por um pequeno átrio onde existe um lavabo. É uma sala pequena, mas bastante rica em termos de decoração, com um belo retábulo em estilo rococó e um conjunto de bonitas esculturas religiosas. O teto e o chão são em granito pintado proveniente do Brasil.

No Coro Alto foram colocadas duas filas de assentos feitos com madeiras nobres e nas paredes estão telas representando os Santos Beneditinos e o próprio São Bento. Os monges vinham aqui 8 vezes por dia para orar. Ao centro está a estante onde colocavam os livros litúrgicos. A imagem de Cristo crucificado foi aqui colocada em meados do século XVIII.


Na Sala da Ouvidoria, o Abade ouvia os habitantes da terra que vinham apelar pela sua intervenção sobre as sentenças que eram proferidas pelo Juiz. Os aposentos do Abade de Tibães, que era também o Abade Geral da Congregação, ocupavam um espaço considerável ou não fosse ele um homem com grande poder e influência. Tinha uma capela privada, jardim, sala para visitas e gabinete de dormir. O mobiliário era sumptuoso com madeiras exóticas, loiças, pratas, alcatifas, cortinados de linho…



Ao longo da Galeria dos Abades Gerais localizam-se as celas onde dormiam os monges que davam apoio ao trabalho do Abade Geral na administração da Congregação. A Hospedaria Monástica é um corredor com 16 celas onde dormiam os hóspedes e peregrinos que visitavam o mosteiro. O mobiliário era básico, mas continha o essencial. O hóspede devia obediência ao Abade e tinha que assistir à missa. Se ficasse por um período superior a 3 dias era-lhe pedido um pagamento pela estadia. Ao fundo do corredor situavam-se as “secretas” (retretes).



Um barbeiro deslocava-se ao mosteiro de 12 em 12 dias. Na Barbearia e Botica ele não só fazia as barbas e os cabelos como era também responsável por extrair dentes e prestar outros cuidados médicos! A Botica estava equipada com todo o tipo de ervas medicinais, drogas e pomadas que eram feitas pelos próprios monges com ervas que cultivavam na Cerca de Tibães.

A Sala do Capítulo, que foi construída em 1700 e onde eram realizadas as reuniões com as instâncias superiores, é um dos espaços mais nobres do mosteiro. Para além do bonito teto de madeira pintada, são dignos de ser apreciados os bonitos painéis de azulejos e a série de quadros de personalidades da igreja e da Coroa Portuguesa.


A cozinha, situada no piso térreo, data do início do século XVII. Em espaços distintos estava a casa dos fornos, a casa dos fogões de pedra e as despensas onde se guardavam os alimentos, assim como as loiças e outros utensílios. Os monges faziam duas refeições por dia. Tinham sempre pão, água e vinho que acompanhavam com carne ou peixe, legumes e fruta. Mais tarde foi introduzido o arroz em todas as refeições. Em dias de jejum havia apenas uma pequena refeição. Nos dias de festa havia comida em abundância e variados doces conventuais, mas os “reis da mesa” eram o leitão assado, a lampreia e o pão-de-ló. Este espaço foi totalmente destruído durante um violento incêndio em Julho de 1894.

Saindo para o exterior, fomos dar um passeio pela Cerca do Mosteiro de Tibães que faz parte integrante do complexo e é delimitada por um muro com quase 3km de extensão. Dentro da Cerca produzia-se tudo o que era necessário para a manutenção da comunidade como sendo, frutas e legumes, linho, caça, lenha e madeira para construção e a alimentação para os animais. Também havia um moinho de pão, o engenho do azeite e a serração. Os monges, para além de trabalharem muito nestes campos, também usavam estes caminhos agrícolas para meditação e lazer.



Construíram um Escadório simbolizando a subida aos Céus. Erigido em apenas 3 anos, entre 1731 e 1734, cada lanço de escadas é separado por uma fonte. Até ao final da subida encontramos sete fontes, dois chafarizes e um tanque de água. O Escadório termina com a chegada à pequena Capela de São Bento construída em meados do século XVI e reconstruída dois séculos mais tarde.


O Grande Lago foi um dos últimos acrescentos a toda esta estrutura. Construído em 1795, era um importante reservatório de água e fonte de energia para a rega e para fazer funcionar os moinhos. Hoje em dia a horta e pomar têm um sentido mais educativo do que produtivo, mas continua a produzir-se aqui vinho verde de boa qualidade. Ao longo da Cerca há dois percursos devidamente assinalados, que os visitantes podem fazer: o percurso verde e o percurso vermelho. O primeiro tem a duração aproximada de 45 minutos e o segundo demora aproximadamente 90 minutos.


O mosteiro está aberto de terça-feira a domingo entre as 10h e as 19h, encerrando às 18h durante o Inverno. O bilhete é gratuito até aos 12 anos, adultos/4€ e séniores e estudantes/2€. A entrada é gratuita aos domingos e feriados para todos os cidadãos residentes em Portugal. Se estiver de passagem pela região do Minho, não deixe de visitar este belo exemplar do património religioso português.


♥ Boa viagem ♥


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