Auschwitz/Birkenau – para além do impensável

Andámos muito tempo a preparar-nos para dar este passo. O nosso subconsciente estava com dificuldade em aceitar que havia neste mundo um local onde tinham sido cometidas atrocidades para as quais ainda não foram criadas as palavras certas. Um dia demos por nós a dizer: está na hora, esta é a altura certa! E lá fomos nós conhecer os campos de concentração de Auschwitz e Birkenau, integradas num circuito organizado de visita à Polónia.

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Mapa dos campos de concentração e extermínio

Em 1939 e sob o comando de Adolf Hitler, deu-se início à Segunda Guerra Mundial. Na altura, o ditador viu-se na necessidade de exterminar alguns grupos indesejáveis aos olhos da sociedade alemã. Para esse efeito, em 1940, mandou construir instalações que funcionariam como campos de concentração e extermínio de inimigos políticos, judeus e ciganos. Estes campos que estão localizados a aproximadamente 70 Km de Cracóvia, ficaram mundialmente conhecidos como símbolos do Holocausto e foram reconhecidos pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade em 1979.

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A principal torre de vigia em Auschwitz

O primeiro campo de concentração, Auschwitz I, foi inaugurado em 20 de Maio de 1940. Aqui foi instalado o centro administrativo de todo o complexo de campos. Rudolf Franz Ferdinand Hoss foi o comandante do campo e responsável pela introdução do pesticida Zyklon B contendo cianeto de hidrogénio que acelerava os processos de matança. Em  Outubro de 1944 e prevendo que o fim da guerra estava próximo, foi dada ordem para  encerrar as câmaras de gás, não sem antes acelerar o processo de exterminação. Nessa altura chegaram a ser mortas 2000 pessoas por hora só em Auschwitz.

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A casa onde vivia o Comandante e a sua família

Em 1946 foi capturado pela polícia militar britânica e sentenciado à morte por enforcamento. A sentença foi executada no dia 16 de Abril de 1947, na entrada do local onde fora o crematório de Auschwitz. A título de curiosidade, Rudolf Hoss que era casado e tinha cinco filhos, era um marido exemplar e um pai extremoso!

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Cadafalso em Auschwitz I onde Rudolf Hoss foi enforcado

Este campo serviu inicialmente para utilização de trabalhos forçados dos prisioneiros. No entanto, em Setembro de 1941 foi aqui testada a primeira câmara de gás. As primeiras vítimas foram 850 polacos e russos. A experiência foi considerada um sucesso! Depois disso 70 000 prisioneiros morreram neste campo.

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Uma das chaminés dos fornos de incineração

Este é, sem dúvida, o local mais triste onde já estivemos, mas achamos que é preciso estar lá, sentir aquele ambiente, os cheiros (que ainda permanecem), para tentar compreender o incompreensível. Nós estávamos integradas num grupo com guia e foi muito útil ter alguém que fosse explicando a História do local ao longo da visita, por isso achamos imprescindível que recorra aos serviços de um guia do Museu/Memorial, para fazer o percurso.

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Uma visita difícil e marcante

A entrada é gratuita mas se quiser um guia tem que pagar uma taxa consoante o tipo de visita que quer fazer. O Museu abre todos os dias às 7.30h mas tem horas diferentes de encerramento ao longo do ano. Consulte aqui todas as informações.

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Entrada do Museu/Memorial

Cruzámos o famoso portão de entrada com a frase “arbeit macht frei” que significa “o trabalho liberta”. Por aqui entravam todos os prisioneiros a quem era dito que, se trabalhassem muito e bem, seriam libertados. Só não sabiam que ao fim de dois meses de exploração, mal alimentados e já com doenças, eram considerados inúteis e condenados a morrer.

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O famoso portão de Auschwitz que só servia para entrar…

O Museu/Memorial de Auschwitz, que é o próprio campo de concentração, foi aberto ao público em 1947. O tour a este museu é apresentado de forma cuidada e elucidativa, de maneira a não ferir a sensibilidade dos mais de trinta milhões de visitantes que já por aqui passaram. Dos 30 edifícios/blocos que compõem o campo, cinco estão abertos para visita. No primeiro alojamento estão expostas uma série de fotos que explicam como eram seleccionados os prisioneiros. Os homens mais fortes eram escolhidos para trabalhar. Os mais fracos, mulheres, crianças e idosos eram logo levados para as câmaras de gás, pensando que iam ser purificados antes de serem alojados. Algumas mulheres eram poupadas a esta triagem para ficarem a satisfazer os prazeres carnais dos soldados do campo.

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Fotos da chegada dos primeiros prisioneiros
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A triagem

Nas salas seguintes há montras onde estão expostos os haveres dos prisioneiros que lhes eram retirados à chegada, como sapatos, óculos, malas e até as suas próteses. A maior montra e a mais impressionante, encontra-se numa sala separada e exibe os cabelos humanos, que eram rapados a todos os que chegavam e serviam depois, por exemplo, para encher colchões ou para o fabrico de insonorização de submarinos. É proibido fotografar esta sala.

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As próteses dos prisioneiros…
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… e os sapatos

Chegamos aos dormitórios onde os beliches tinham três pisos mas cada cama tinha que ser partilhada por várias pessoas. Os sanitários que não tinham qualquer privacidade, eram apenas usados em horário fixado pelos nazis.

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Um dos dormitórios

Durante a visita é proibido fotografar em alguns locais. É o caso dos blocos 10 e 21 onde o monstruoso médico Josef Mengele levou a cabo as mais bizarras experiências com humanos. Era também ele que decidia quem vivia ou morria mais cedo. Em 17 de Janeiro de 1945, pressentindo que estava para breve a chegada das tropas libertadoras, fugiu do campo e conseguiu refugiar-se nos países da América do Sul evitando assim a sua captura. Morreu no Brasil em 1979.

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Bloco 21 – o “centro médico” do campo de concentração

Aqui ao lado, num pátio, fica o muro de fuzilamento onde eram executados os prisioneiros que desobedeciam às ordens ou se revoltavam. As marcas das balas continuam lá!

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O muro de fuzilamento

Os nossos passos foram ficando mais pesados e o ambiente mais tenso à medida que nos aproximávamos do complexo onde estava instalada a câmara de gás com 210 metros quadrados.

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Entrada da câmara de gás. As janelas eram fictícias!
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Interior da câmara de gás

Os prisioneiros eram fechados nessa sala escura, entre 800 e 1000 de cada vez. O gás era então libertado através de aberturas no tecto. Quando o veneno começava a fazer efeito, a morte chegava em menos de 20 minutos.

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Os buracos no tecto por onde era libertado o gás venenoso
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As embalagens do pesticida Zyklon B

Depois, um grupo de prisioneiros/trabalhadores levava os corpos para serem incinerados nos fornos. Tudo tinha que ficar de modo que não restasse qualquer prova de crime. As cinzas serviam para fertilizar os campos dos alemães!

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Os fornos onde eram incinerados os corpos

Pensam que já viram tudo? Não, ainda há pior!!! Entramos no Bloco 11, o das torturas e julgamentos e descemos para a cave. Aqui era a prisão dentro da prisão.

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Local onde deixavam as roupas antes da derradeira morada…
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Aqui… antes a morte que tal sorte.

Lá em baixo aconteceram horrores que as palavras não conseguem descrever! Poucos saíram daqui com vida. Foi aqui que nos demos conta que era impossível conseguir entender Auschwitz!!!…

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Entrada do Bloco 11 das torturas…

De seguida fomos para Birkenau que fica a 3 Km do primeiro campo de concentração. Inaugurado em 7 de Outubro de 1941, este foi o maior e mais terrível de todos os campos, onde morreu mais de um milhão de pessoas.

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Entrada do campo de Birkenau

Todos os dias chegavam comboios cheios de judeus, muitos deles idosos e crianças. À chegada eram avaliados e os que eram considerados aptos para trabalhar, ganhavam mais uns dias de vida. Gémeos e anões eram escolhidos para experiências médicas!

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Placa identificativa do local
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Aqui foi o fim da linha para mais de um milhão de almas…

Os barracões eram de madeira e tinham apenas um piso. O chão era de terra batida, não havia janelas nem sanitários e nalguns casos, 40 beliches tinham que servir para acomodar 500 pessoas!

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Os barracões de madeira de Birkenau

Aqui perdiam a identidade. Deixavam de ter nome para lhes ser tatuado um número no antebraço e usavam todos o mesmo fato às riscas. As refeições consistiam num naco de pão com manteiga e chá ou café e, por vezes, uma sopa feita com legumes ou carne de qualidade duvidosa. As doenças proliferavam. O frio também matava!

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Os beliches de madeira

O barracão destinado a sanitários tinha um muro de pedra com buracos no lugar de sanitas. Era esta a única opção, absurda e desumana, dos prisioneiros, completamente desprovidos de privacidade quer fossem homens, mulheres ou crianças. O seu uso apenas era permitido no início do dia de trabalho e no fim, 10 horas depois.

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Os sanitários

Aqui funcionou a maior fábrica de matar da História da Humanidade! Os prisioneiros/trabalhadores não viviam mais que dois meses. Para além de nessa altura já se encontrarem muito fracos, também não podiam testemunhar o que ali se passava…

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Não havia hipótese de fuga

Neste campo ainda havia outras formas de “produção de defuntos”. Injecções letais e envenenamento com soda cáustica, faziam parte das práticas dos soldados e todas as noites 70 mulheres eram fuziladas com um tiro na nuca. Muitos prisioneiros cometeram suicídio lançando-se contra as cercas electrificadas que circundavam todos os campos.

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Aviso de arame electrificado em Auschwitz I

No final de 1944 e prevendo a aproximação das tropas russas, os nazis começaram a transferir os prisioneiros para outros campos menores, na tentativa de apagar o rasto dos seus crimes. Milhares de judeus tiveram que percorrer centenas de Quilómetros a pé. Os que não resistiam eram enterrados em covas rasas e assim, não deixavam vestígios de extermínio em massa. Muitos morreram durante a que ficou para a História como sendo a “Marcha da Morte”. As tropas soviéticas chegaram a Auschwitz na tarde do dia 27 de Janeiro de 1945. Morreram 231 soldados russos devido à resistência das tropas alemãs. Oito mil prisioneiros que tinham sido deixados para trás por estarem muito fracos e doentes, foram libertados nessa tarde de sábado.

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As torres de vigia de Birkenau

Antes de abandonarem os campos, os nazistas explodiram tudo, tentando desesperadamente apagar as provas das suas barbaridades. Outros 45 sub-campos fizeram parte deste complexo de horror!

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O que restou dos barracões que foram deitados abaixo

A nossa visita neste campo foi breve por falta de tempo, mas pode ainda subir à torre da entrada e ver uma exposição fotográfica e toda a extensão de Birkenau. No fundo do campo pode ainda visitar o Memorial erguido em honra de todos os que aqui sucumbiram.

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Memorial às vitimas em Birkenau

Para muitos foi o fim da linha, para outros uma dor interminável… uma mancha negra na História da Humanidade. É preciso dar a conhecer os campos de concentração de Auschwitz e Birkenau e lembrar sempre o que ali aconteceu, para jamais permitir que se repita…

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O dia 27 de Janeiro foi declarado Dia Internacional da Lembrança do Holocausto pela Assembleia Geral das Nações Unidas

♥ Boa viagem ♥

Guia prático

♦ Quando ir

A área metropolitana de Cracóvia apresenta uma mistura de climas que se caracteriza por Invernos muito frios e Verões temperados. Ao viajar para esta zona da Polónia deve contar com temperaturas que, no Verão, variam entre os 12ºC e os 30ºC. Os Invernos são muito rigorosos, com muita chuva e queda de neve. Nesta altura as temperaturas podem descer aos -6ºC e raramente sobem para alem dos 2ºC.

♦ Como ir

Não há voos directos de Lisboa para Cracóvia, mas várias companhias aéreas voam para Varsóvia com ligação a voos domésticos para Cracóvia. Para visitar os campos de concentração de Auschwitz e Birkenau, apanhe um autocarro na Estação de Camionagem de Cracow Glowny, mesmo ao lado da Estação Ferroviária com o mesmo nome, muito perto do Centro Histórico da cidade. O autocarro destina-se a Oswiecim mas deve descer na paragem Oswiecim Museum. Os autocarros circulam entre as 6h e as 20 horas e partem a cada 15/30 minutos, conforme a altura do ano. A viagem dura aproximadamente 1h20m. O preço do bilhete para cada viagem ronda os 22PLN (5€). Entre os campos de Auschwitz e Birkenau circula um autocarro gratuito com partidas a cada 15 minutos durante o Verão e a cada 30 minutos no Inverno.

♦ O que vestir

Durante o Verão são aconselhadas roupas leves, mas no Inverno o frio é coisa séria. Previna-se com bons agasalhos e calçado adequado, não esquecendo o chapéu para a chuva que cai com frequência.

♦ Alojamento

A cidade de Cracóvia tem uma vasta oferta de alojamentos para todos os gostos e bolsas. Nós ficámos alojadas no Hotel Park Inn by Radisson com excelente serviço, refeições de superior qualidade e perto do Centro Histórico.

♦ Informações importantes

Visite o nosso Guia de Viagem para a Polónia onde encontrará indicações úteis sobre a entrada e permanência no país.

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